História de Professor

Por Prof. José Tarciso Fialho Professor de Pós-Graduação Presencial da Facinter e da Fatec Internacional  

Imagem da NotíciaEm pleno desespero, após a ponte 14, uma nova surpresa nos aguardava. Lembrando sempre que a mão esquerda do Sr. Matias estava nos olhos e a direita, ora no volante, ora na marcha. De repente, animais na pista... Na verdade, eram dois tamanduás “comestíveis”, segundo Sr. Matias. O que é pior, passaram a ser perseguidos pelo Sr. Matias. Na sua simplicidade de “cabôko” do mato, ele dizia que sempre que tinha bicho de comer na estrada, ele caçava, ou melhor, tentava atropelar, para levar para casa. Não dá para acreditar naquela cena. Tentei argumentar rapidamente, dizendo da importância da biodiversidade, do meio ambiente, natureza... o escambau..., mas desisti, pois a 100 por ora, não tinha quem conseguisse dar aula de meio ambiente... nem quem quisesse tê-las... Fato é que ele já estava com a “arma” engatilhada em direção aos dois coitados... Agora já estávamos na impressionante velocidade de 120km/h e o barulho das pedrinhas de piçarras no assoalho do carro era ensurdecedor, infernal mesmo... Aí, escuto o grito do Sr. Matias: "filhos-da-mãe, conseguiram escapar!!!" Eu suspirei fundo, um pouco mais aliviado pela sorte dos bichinhos. Quase que não dá para acreditar, mas entre as pontes 17 e 18, quem está na estrada? Isto mesmo, outro bicho, desta vez um veadinho. Ai, meu Deus, vai começar tudo de novo, pensei. Não deu outra. Os olhos do Sr. Matias brilharam, e foi logo acelerando e dizendo: esse não me escapa. Vale lembrar que nestas alturas o Sr. Matias já não precisava mais se defender do sol e voltava a dirigir com as 2 mãos... Se, com uma, ele fez o que fez, imagina com as 2... Pela primeira vez em minha vida vi um carro em estrada de chão a 125km/h. Acho que nem em desenho animado tinha visto coisa igual... Naquela altura, o que me preocupava nem era mais o bichinho, mas as conseqüências de uma batida naquela velocidade a um animal daquele porte. Tentei, muito rapidamente argumentar isto com o Sr. Matias, meio aos gritos. A resposta foi fulminante: “eu sei o que estou fazendo. Já cacei muitos assim. Não bato de frente, mas meio que de lado, só com o pára-choque. Amassa só um pouquinho”... Ele chamava aquilo de caça!!! “E o Sr. está me atrapalhando”... Resolvi só assistir. Foi quando escutei o grito final de Sr. Matias: “que droga!!! Escapou de novo. Não tô com sorte hoje. Acho que o Sr. está me dando azar, seu Tarciso”. Preferi não comentar... Mas, pelo tanto de amasso do carro, pude imaginar a sorte dos veadinhos que já passaram na frente do Sr. Matias... Sua “arma” era mesmo muito eficiente... Mais uma vez me veio a vontade de dar uns conselhos ecológicos, falar de sustentabilidade, da necessidade de se preservar as espécies, etc e tal, mas, novamente, desisti com a observação que o Sr. Matias já estava fazendo a respeito da bicharada: “Ah! Seu Tarciso eu fico muito triste quando não levo nenhuma caça pra casa...” Bom, se até àquele momento a floresta era rasa, com um ou outro “fragmento” mais denso e mais expressivo, a partir da 22ª ponte, ela se tornou esplendorosa. Agora sim. Posso afirmar que estava na verdadeira Floresta Amazônica. Árvores gigantescas nos rodeavam e podia se ouvir uma infinidade de sons vindo de dentro da floresta. Embora tudo muito lindo e maravilhoso, também dava uma sensação de pequenez perante àquela natureza tão exuberante. Chegava a dar até um pouco de medo... Já eram quase 8 horas. Sinal de que estávamos próximos do fim. Jarí estava chegando. Uma paisagem tão agradável assim, possibilitou-me um certo equilíbrio mental, suficiente para lembrar que era necessário entrar em contato com a Ilinice para dizer que eu chegaria por volta das 09h e que poderia iniciar a aula em torno das 09h30 ou 10h. Mas como fazer isto naquela selva? Aí me lembrei de que existe o tal do celular. O meu não dava sinal. Então me lembrei também que quase todo mundo tem celular e um senhor que sempre anda de madrugada, fazendo frete de gente quase todo dia, em plena selva, também deveria ter um celular. Não deu outra, Sr. Matias tinha um. Parecia que tudo ia dar certo agora, não fosse o fato de que o celular do Sr. Matias também estar “fora do ar”... De repente, um lugar para parar, esticar as pernas e coisa e tal. Parecia inacreditável. Foi como aqueles filmes de aventura em que surge na selva um local onde existe gente. Tudo isto na Selva Amazônica... Mas tinha e era real. E o mais impressionante pra mim naquela situação: tinham dois, e não um, telefones públicos. Agora sim, senti firmeza. Tudo parecia se encaixar, não fosse o fato de, os 2 telefones, não funcionarem também... Sr. Matias estava comprando farinha de carne, quando eu avistei algo impressionante: um fruto incrível que estava à venda, um ingá. Não era um ingá qualquer, senão o maior ingá de todos os tempos. Só para se ter uma idéia, o maior que eu já tinha visto na vida media apenas uns 20cm. Mas aquele ali era enorme. Tinha cerca de um metro de comprimento. Só o caroço do ingá era do tamanho de uma azeitona grande. Não resisti e comprei 3 metros. Dei um para o Sr. Matias e comi os outros dois metros, como se fosse um café da manhã. E foi o café da manhã mais natural que já tive... Agora estávamos entre as pontes 25 e 26. Nesta altura, já não mais me surpreendia com a quantidade de animais que passava ao meu lado ou à minha frente. Macacos, jacarés, tamanduás, mais macacos, veadinhos, tatus, jabotis, mais macacos, cobras, cotias, mais macacos, muito mais macacos, muito mesmo... Mas, a estrada já não era tão boa quanto antes. E o que era pior, praticamente cabia somente um carro. Mas para o Sr. Matias “não tinha tempo quente”. Ele só reduziu um pouco a velocidade, e sempre achando que o seu carro era prioritário e os outros é que tinham que parar para ele passar. Isto me dava uma grande agonia... Foi assim que o Sr. Matias enfrentou um caminhão cheio de madeira, que vinha em sentido contrário. E não era qualquer madeira. Eram toras muito grandes, cujo volume ultrapassava os limites do caminhão. Era um horror de grandeza. E ele não parava... E o Sr. Matias também não, pois como sempre, achava que a prioridade era dele... Mas, só cabia um carro na estrada... Meu coração disparou novamente (já nem sei mais qual seria o número de vezes que aconteceu isto comigo nessa aventura). Sabia que não adiantava gritar ou falar qualquer coisa, pois o Sr. Matias retrucava na hora. Eu tinha que confiar nele. As nossas poeiras estavam muito altas mesmo. Sr. Matias detestava “comer poeira” e já me disse: “fecha a janela seu Tarciso, que já vem poeira”. Com aquele comando percebi o que viria pela frente: ele não estava disposto a parar mesmo... E o que é pior, percebi que o caminhão não iria parar também... Meu consolo era saber que do meu lado estava um gênio do volante. Senna e Shumacker não conseguiriam enfrentá-lo naquele ambiente. Não sei o que houve, porque, desta vez, preferi não ver nada. Foi como se eu tivesse entregue a Deus... foi tudo muito rápido. Escutei apenas um barulho seco, daqueles de batida e a voz do Sr. Matias esbravejando: “por que não parou seu "fí-duma-égua"? Não foi nada não seu Tarciso, foi só um arranhãozinho”... Foi inacreditável a cena que vi a seguir. O caminhão parado e, dele, saindo um “cabôko” muito forte e de sandália havaiana nos pés. O Gol, meio inclinado, conseguiu subir em um barranco e passar pelo caminhão. A única coisa que ocorreu foi um afundamento do espelho retrovisor, que bateu num pedaço de tora que sobrava na lateral do caminhão. Se querem saber mesmo, o Sr. Matias passou, inclinadamente, de forma perfeita e no único lugar possível para aquilo tudo acontecer sem um arranhão sequer em ninguém. Mas os dois se encontraram um com o outro. Neste momento pensei o pior, embora tivesse consciência de que nada poderia ser pior do que eu havia acabado de passar ou sentir. Mas, sei lá, poderia ser uma porrada, ou um tiro, ou uma facada, pois pareciam dois ursos querendo se enfrentar... Mas o Sr. está de sandálias havaianas, disse o Sr. Matias. É, estou, e foi ela que agarrou no acelerador e não deu para parar. Eu ia parar, respondeu o grandalhão. Isto já aconteceu comigo, eu também tenho uma e nunca mais dirigi com ela... Por incrível que possa parecer a culpa da batida ficou com as havaianas e os dois riram disto... E se despediram... Se, por um lado tudo isto me estressou por demais, aprendi, definitivamente, que o Sr. Matias era um verdadeiro “az” no volante e que eu não precisava mais me preocupar ou duvidar disto. Pensei que, depois desta, nada mais de grave poderia ocorrer e que pudesse tirar a confiança na direção do Sr. Matias. Isto, se não fosse o que viria a seguir...

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