O ensino, aprendizado ou estudo da história tem sido motivo de reflexão de muitos pensadores da atualidade. Juntam-se a isso as constantes descobertas que transformam aquelas “verdades”, dadas as mudanças que acontecem na velocidade da luz.. Neste cenário a pergunta infalível é: com um mundo voltado para o futuro e para as novas e rápidas inovações, em que a reflexão sobre os acontecimentos passados pode ser útil? Há quem diga que os fatos históricos e os acontecimentos são cíclicos, isto é, acabam se repetindo em outros contextos e, por isso, estudar história pode ser interessante quando se quer “prever” os próximos passos da humanidade. O professor de história da Faculdade Internacional de Curitiba, Christiano Ferreira, crítica essa visão: “conhecer história não significa ter bola de cristal: você ganha, no máximo, um espelho retrovisor.” Ele ainda explica que essa noção de história “funcionalista”, em que tudo deve servir sempre para algo ou ter alguma função, pode ser classificada como “sem função”. “A história não serve para nada, assim como a arte não serve para nada no sentido comum da palavra”, continua.
Afinal de contas, então, para que se ensina ou se aprende história? A questão está no como enxergar a história. Se enxergarmos diversas disciplinas com o olhar funcionalista e imediatista que perdura desde o início do século XX, a história não tem uma função clara. Ela acaba sendo um decorar e “papagaiar” acontecimentos. O professor de patrimônio, também da Faculdade Internacional de Curitiba, William Vicentin denuncia que essa é uma responsabilidade (ou irresponsabilidade) dos próprios professores: “para aqueles que não se aprofundam na reflexão, o ensino é só para fazer de conta. Eles não estão levando a sério o ensino e nem o período em que vivemos, e o ensino se transforma em um simples repetir de fatos sem reflexão”.
Para muitos professores, unir as novas possibilidades tecnológicas com o conhecimento do que já passou é praticamente impossível. E é bem nesse link ou na falta dele que acontecem os principais problemas. O professor William concorda que a visão atual é focada em “modernidade, tecnologia. É claro que não devemos nos bitolar no passado, devemos usufruir da tecnologia. Mas para exercer nossa profissão, levando o aluno a saber quem ele é, de onde veio e para onde vai. Precisamos compreender que somos filhos de nosso tempo, como a história”.
Já para o professor Leandro Karnal, chefe do departamento de História da Universidade de Campinas, o docente é o principal motivador ou desmotivador do processo de aprendizado de história. Para ele, é imprescindível que o professor se utilize das novas tecnologias e faça o aluno movimentar-se na sala para pensar em história, inserido nas tecnologias atuais. Portanto, cabe ao professor utilizar situações que estão perto do aluno para fazer o gancho com o que pretende ensinar. “Por exemplo, se eu for ensinar maniqueísmo persa, posso começar citando a novela Celebridade (Rede Globo), mostrando como na novela aparece o bem e o mal de forma bem dividida e como isso é uma herança do maniqueísmo e do zoroastrismo. Não é análise da novela, é fazer um gancho com a novela para trazer o conteúdo”, explica.
Numa outra abordagem, conhecer as origens do que nos rodeia é, para a nossa sociedade, objeto de busca em menor ou maior grau. Basta ver nas famílias o interesse que leva à procura pela identidade em relação ao que os antecessores foram e fizeram. Para um exercício comprobatório, é só lembrar de situações que acontecem comumente em momentos variados. É impossível um avô ou mesmo um bisavô não ser citado em uma reunião de família. O que o pai ou mãe eram ou fizeram quando menores é muito interessante aos adolescentes, que querem saber, afinal, com quem se parecem ou com quem nunca vão se parecer. Crianças sempre perguntam de onde vieram, querem ver fotos de quando pequenos ou mesmo de quando os pais eram pequenos. A tônica dessa abordagem recai sobre a busca do “quem sou eu”, e de onde se está inserido. O professor Christiano concorda: “àqueles que dizem odiar história falta notar que, em maior ou menor grau, todos pensamos historicamente”.
O pensar historicamente precisa estar inserido em algumas abordagens: a de que os fatos são contados com a parcialidade de sujeitos que estavam integrados ao momento histórico - e disso advém a célebre frase que afirma que a história é contada geralmente pelos vencedores - além de refletir que ela é uma versão dos fatos e que não se chega a sua gênese sem passar por determinados filtros políticos, econômicos, sociais e culturais. Exemplos antigos dessa visão são os evangelhos da Bíblia. Não deixam de significar o relato, partindo da visão de 4 indivíduos, de uma sucessão de acontecimentos. O que fez esses relatos serem escolhidos em detrimento de outros para participar do livro mais lido da história cabe mais ser analisado como algo contado pelos vencedores. Mas há um movimento de busca por outras versões. O professor Christiano explica que “a história é predominantemente contada pelos vencedores, mas isso não acontece em todas as situações nem por todo o tempo. A disciplina incorporou à sua prática uma série de métodos e preocupações com o chamado “andar de baixo”, os quais, infelizmente, nem sempre chegam à sala de aula e aos currículos escolares.”
Nessa visão, é importante entender que a história ou os relatos dela são processos mutáveis e dinâmicos. Christiano relativisa o ensino/conhecimento de história citando Shakespeare em ‘Macbeth’: “A vida é uma história, contada por um idiota, cheia de som e fúria e significando nada”. Dessa forma, entender história como algo fixo, imutável, com verdades absolutas é, na certa, distorcer a maneira como as coisas existem ou se sucedem no tempo.
A omissão de dados, fatos ou mesmo de acontecimentos também não deixa de ser uma forma de escrever a história. Ou de não escrever. A intenção da igreja de “esconder” alguns dos outros evangelhos ou mesmo dos neo-nazistas tentarem, pela repetição, convencer de que o holocausto não existiu são exemplos de se escrever a história a partir da omissão. Por isso, o estudo da história deve ir além do repetir “estórias” escritas por alguém. Entender que D. Pedro II pode ter dito “Fico” por ‘n’ outras razões do que simplesmente ‘salvar o povo’ brasileiro da dependência, ou que a Princesa Isabel simplesmente cedeu às pressões gerais para fazer a abolição da escravatura e que acabou lançando milhares de negros ao ‘Deus dará’ ou mesmo que Duque de Caixas pode ter sido um matador em série, pode nos trazer a visão mais aproximada da história real: humana, como nós.
Referência:
http://novaescola.abril.com.br
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